Category Archives: Krishnamurti

A Terra Maravilhosa

Enquanto caminhava na praia as ondas eram enormes e quebravam com força e curvas maravilhosas. Você caminhava contra o vento, e de repente sentiu que não havia nada entre você e o céu, e esta abertura era o paraíso. Estar tão completamente aberto, vulnerável – às montanhas, ao mar, e ao homem – é a própria essência da meditação. Não ter resistência, não ter barreiras interiores a coisa alguma, ser realmente livre, completamente, de todas as ânsias menores, compulsões, e exigências, com todos os seus pequenos conflitos e hipocrisias, e caminhar pela vida de braços abertos. E nessa tarde, caminhando ali naquela areia molhada, com as gaivotas à sua volta, sentiu a extraordinária sensação de liberdade aberta e a grande beleza do amor que não estava em si ou fora de si – mas em todo lugar.

krishnamurti_2

Krishnamurti

All The Marvelous Earth Brockwood Park 3rd Public Talk 6th September 1980

Anúncios

O Medo – Krishnamurti

O que é o medo? O medo só pode existir em relação a alguma coisa, não isoladamente. Como posso ter medo da morte, como posso ter medo de alguma coisa que não conheço? Só posso ter medo daquilo que conheço. Quando digo que tenho medo da morte, será que tenho realmente medo do desconhecido _que é a morte _ ou tenho medo de perder aquilo que conheço? O meu medo não é da morte, mas de perder a minha ligação às coisas que me pertencem. O meu medo está sempre em relação com o conhecido, não com o desconhecido.

…. Há medo da dor. A dor física é uma reacção nervosa, mas a dor psicológica surge quando estou apegado a coisas que me dão satisfação, porque nesse caso tenho medo de alguém ou de alguma coisa que possam roubar-mas.

… O medo encontra várias fugas. A variedade mais comum é a identificação _ identificação com o país, com a sociedade, com uma ideia. … A identificação é um processo de auto-esquecimento. Enquanto estou consciente do “eu”, sei que há dor, há luta, há medo constante. Mas se for capaz de me identificar com alguma coisa maior, com alguma coisa que acho que vale a pena _ com a beleza, com a vida, com a verdade, com a crença, com o conhecimento _ pelo menos temporáriamente, há uma fuga ao “eu”, não é assim?

… Será que sabemos o que é o medo? Não será a aceitação de o que é? … Como posso “eu”, que sou um feixe de todas estas reacções, memórias, esperanças, depressões, frustrações, que sou o resultado do movimento da consciência bloqueada, passar além dela? Será que a mente, sem este bloqueamento, este obstáculo, pode estar consciente? Sabemos que, quando não há obstáculo, há uma extraordinária alegria. …Há compreensão e liberdade em relação ao “eu” somente quando sou capaz de olhá-lo completa e integralmente como um todo; e só sou capaz de fazer isso quando compreendo na totalidade o processo de toda a actividade nascida do desejo que é a própria expressão do pensamento _ porque o pensamento não é diferente do desejo _ sem justificar, sem condenar, sem reprimir. Se for capaz de compreender isso, então saberei se há possibilidade de transcender as limitações do “eu”.

( in “O Sentido da liberdade” – J.Krishnamurti)


Meditação – Krishnamurti

“Meditar é estar inocente no tempo”.

moonstoneO homem, para se evadir dos seus conflitos, tem inventado muitas formas de “meditação”. Estas têm por base o desejo, a vontade e a ânsia de conseguir algo, o que implica conflito e uma luta para chegar. Este esforço consciente, deliberado, realiza-se sempre dentro dos limites de uma mente condicionada, e nesta não existe liberdade. Todo o esforço para meditar é contrário à meditação.

A meditação vem com o cessar do pensamento. E só então se revela uma dimensão diferente, que está além do tempo.

                                                                                                                                                                                                                J.Krishnamurti/Março 1979                                                                                                                                                                                                                    

A meditação não é um meio para atingir um fim, não há nenhum fim, não há nenhum chegar; ela é um movimento no tempo e fora do tempo. Qualquer sistema, qualquer método, prende o pensamento ao tempo. A atenção, sem escolha, a cada movimento do pensamento e do sentir, a compreensão dos seus motivos, dos seus mecanismos, permitindo  que o pensamento e o sentir “floresçam”, é o nascer da meditação. Quando o pensamento e o sentir florescem e morrem, a meditação é um movimento além do tempo. Nesse movimento há êxtase; nesse vazio total há amor, e com amor há destruição e criação.

“A meditação é a acção do silêncio”



 

Krishnamurti -Apontamento

krishnamurti“Um dos maiores pensadores da actualidade”,disse Dalai Lama. Para mim…um Mestre muito querido, que me ajudou a compreender que para encontrar a Verdade, tenho de ser Livre.

Ler Krishnamurti é ler-nos a nós mesmos, no mundo que criamos e de que somos parte. Aquilo que diz, tal como um fruto, é para ser experimentado:” Não aceiteis o que digo. A aceitação destroi a verdade. Testai-o”.

Krishnamurti não traz utopia, o sistema, a palavra, a crença reconfortante. Chama-nos ao contacto vitalizador com a realidade.

“Estamos a degenerar”, diz, “porém não somos sensíveis ao processo total da vida”. Aldous Huxley, na introdução que escreveu ao livro de Krishnamurti, A Primeira e Última liberdade, “enuncia, de modo lúcido e contemporâneo, o problema fundamental do homem, convidando a resolvê-lo do único modo porque pode ser resolvido: em nós e por nós mesmos”.

J. Krishnamurti nasceu em Madanapalle a 11 de maio de 1895 e faleceu em Ojai a 17 de fevereiro de 1986, na Índia. Nunca se confinou em quaisquer fronteiras de nacionalismo, crença, ideologia.

Desde muito cedo apresentado ao mundo como um dos grandes mestres espirituais do homem, recusou totalmente ser olhado como uma autoridade: “Afirmo que a verdade é uma terra sem caminho. O homem não pode atingi-la por intermédio de nenhuma organização, de nenhum credo (…) tem de encontrá-la através do espelho do relacionamento, através da compreensão dos conteúdos da sua própria mente, através da observação (…)”.

Recusou toda a dependência psicológica, como obstáculo à libertação da mente e à descoberta da Verdade. “Para encontrar a Verdade, o homem tem de ser livre”. Psicológicamente, interiormente. E essa liberdade que é “o primeiro e último passo”, começa pela incompreensão de nós mesmos, na relação com o mundo _ com as pessoas, a natureza, as coisas, as ideias. Salienta que é preciso mantermo-nos livres de qualquer autoridade: “Estou apenas a ser como um espelho da vossa vida, no qual podeis ver-vos como sois. Depois, podeis deitar fora o espelho; o espelho não é importante”.

Considerando a educação como fundamental para a libertação das influências condicionantes, Krishnamurti, fundou oito escolas experimentais _ em Inglaterra, Califórnia, Canadá e Índia. São escolas em que não se estimula a comparação nem a competição entre os alunos, e onde, a par da formação académica, se procura orientar para a compreensão de si mesmo, através do relacionamento com os outros seres humanos e com a natureza _ uma aprendizagem que é compartilhada tanto pelos estudantes como pelos educadores.

O seu modo de estar era de um homem simples, interiormente livre, afectuoso. Tinha um relacionamento atento, sempre disponível a escutar a vida, a atender quem dele se quisesse aproximar.

Krishnamurti veio partilhar, com uma humanidade acomodada à sua trágica condição, a energia desintoxicante da Liberdade.

( In “Apontamentos sobre Krishnamurti: o homem e a obra” _ M.B.B.)