Observava as folhas de outono no chão. Ao longe, um homem calado, sentado num pequeno muro, parecia aguardar que o tempo o levasse. A foto outonal perfeita… Aproximei-me, olhou para mim e começou a falar das cores fantásticas das folhas, querendo assim, desviar a minha atenção, criando um filme melancólico mas não infeliz.
Porém, aos poucos, as folhas foram levadas pelo vento e deixaram a descoberto um chão nu e frio, gasto pelo tempo. Não há como argumentar sobre o colorido das folhas ausentes e a verdade de quem foge à realidade, é revelada. Voltou-se para mim e as lágrimas caíram-lhe no rosto sofredor, evidenciando uma infelicidade profunda. Não houve palavras. Peguei-lhe na mão e partilhei com ele a vida. Os traços do rosto tornaram-se, lentamente, menos vincados e surgiu um sorriso doce.
A partilha silenciosa da verdade enriqueceu-nos o coração.
… O vento trouxe algumas folhas de volta… ele observou-as, olhou para mim e disse: “São só folhas…”

Nós tentamos pintar velhas páginas, agora sem vida, do nosso livro da vida, mas há sempre um vento forte pronto
a desnudar nossas velhas feridas, expondo fragilidades e
sentimentos que às vezes não queremos que o tempo traga
de volta.
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Sucesso sempre para seus lindos textos, de
José Maria Cavalcanti.